O movimento See Now, Buy Now é a solução para o desgaste da moda?

SEGUNDO 30 OK

 

Instigar o consumo e manter o interesse do público nas peças das coleções é uma tarefa e tanto. E quem acompanha a moda sabe que cada de produzir-apresentar-vender não anda lá muito bem.

A gota d’ água aconteceu durante a Semana de Moda 2016 (Nova Iorque, Milão e Paris) quando grandes nomes da alta costura como Burberry, Tom Ford, Tommy Hilfiger se posicionaram insatisfeitos com a situação. Tom Ford não apresentou sua coleção na NYFW para fazer um desfile em setembro, quando as peças estão a venda.

Os estilistas alegam desgaste para manter as coleções “vivas” durante seis meses, desde a apresentação na semana de moda até o período em que as peças estarão disponíveis para venda. As pessoas não querem mais esperar tanto tempo para comprar, quando já viram as peças nos desfiles, nas revistas e claro, na internet. Isso sem falar na criatividade necessária para a criação de uma coleção inteira nova de seis em seis meses.

Em função disso, surge o movimento See Now, Buy Now que altera a data de apresentação das coleções. Ao invés das marcas apresentarem as roupas em fevereiro e começaram a vender em setembro, as roupas serão apresentadas em setembro e vendidas em setembro. Também muda a denominação das coleções, chegando ao fim a nomenclatura outono-inverno | primavera-verão. A partir de agora, passaram a se chamar apenas fevereiro e setembro, meses em que ocorrerão os desfiles.

O Brasil é o primeiro país do mundo que já se alinhou as novas diretrizes do mundo da moda. A partir de 2017, os desfiles de SPFW já serão no novo modelo. A justificativa é fato do país ter um clima tropical, não fazendo sentido delimitar outono-inverno ou primavera-verão uma vez que não temos uma mudança tão drástica nas temperaturas (a não ser nas extremidades como no Sul.)

Apostando nesta nova maneira de “vender” moda, o shopping Pátio Batel em parceira com a revista Harper’s Bazaar realizou a primeira edição do Pátio Batel Fashion Walk. As roupas apresentadas nos dois dias de desfile tiveram curadoria de grandes nomes da revista. Todas as peças exibidas, da coleção outono-inverno 2016, de 70 marcas nacionais e internacionais, já estão a venda no shopping, reforçando a ideia do veja e compre.

Apesar da ideia inovadora, o evento ainda não conseguiu se desprender das ideias engessadas e um tanto antiquadas da indústria de moda. Modelos jovens, com corpos esculturais e rostos perfeitos foram a “vitrine viva” do evento. Durante as apresentações, também observou-se cachorros de raças desfilando junto as modelos de algumas marcas como Adidas, na qual a modelo utilizava uma blusa com o cachorro estampado. Tudo isso, reforçando aqueles velhos paradigmas criados pela indústria cultural que definiram o padrão de beleza a ser seguido anos atrás.

Outro ponto a ser analisado foram os serviços oferecidos durante o evento. Foram realizados diversas rodas de conversa com grandes nomes da Harper’s Bazaar que estiveram em Curitiba durante o evento. Apesar disso, apenas nomes selecionados a dedo da elite curitibana puderam participar destes momentos “exclusivos”.

Já dizia antigamente, a arte e a cultura não são produtos a serem consumidos apenas pelas altas classes da sociedade. E nisso podemos incluir a moda também, uma vez ela está fortemente ligada a arte, a cultura e a formação de identidade de determinado povo.

É claro que todo evento, estratégia de marketing e comunicação precisa definir um público o qual pretende atingir com determinada ação. Mas a partir do momento em que se delimita tanto o público, impedindo que novas demandas sejam alcançadas, pode acabar indo contra o que se quer passar. No caso da moda, é o natural é a perda de consumidores em potencial.

Não digo que todas as pessoas que participaram do evento serão os compradores das peças apresentadas, mas muitas das pessoas que estavam “na parte de fora” podem sim se interessar e vir a comprar. Levando em consideração que o objetivo deste novo movimento é incentivar o consumo, principalmente da alta costura, me parece infeliz restrigir aqueles que podem comprar, seguindo o modelo prêt-à-porter. 

Apesar dos pontos a serem questionados, é de extrema importância que a indústria, o setor privado e os próprios estilistas articulem projetos e eventos que apresentem e desenvolvam a moda. Principalmente no mercado de Curitiba, é preciso criar uma cultura de moda. E cultura não no sentido apenas de consumir, mas de ir muito além disso.  De participação do público, da produção dos estilistas e a valorização do mercado regional.

Em agosto, acontece a segunda edição do Pátio Batel Fashion Walk, com a apresentação da coleção de primavera e verão. E durante todos esses meses e com novas ideias se desenvolvendo, podemos acreditar em uma mudança concreta.

Confira agora, o vlog com detalhes da primeira edição do Pátio Batel Fashion Walk:

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